Do que eu falo quando falo de sonhar, e desejar o sonho que se sonha

 

Para alguns é fácil saber o que realmente se quer, mas o que realmente se quer mesmo?

Não aquilo que se deseja por que é possível de que seja desejado. Aquilo que se quer de verdade pode pedir muita coragem pra gente realmente se ousar a querer, aceitar, e inclusive eliminar a confusão do processo de descoberta de reais desejos.

Eu não sei você, mas eu as vezes, talvez a gente, tenha medo de desejar o que realmente quer.

Tenha medo de realmente querer o que se quer. As razões podem ser muitas, pra mim a mais latente é de que o que realmente desejo possa não se realizar, ai me engano, prefiro não desejar. Mas já faz um tempo que acho que a energia em evitar desejar o que se quer de verdade é um desperdício.

A gente precisa alimentar mesmo o surreal, mesmo o sonho impossível, a gente precisa viver de algo que seja mais do que possível e calculável. A gente precisa espantar a gente mesmo com o nosso próprio desejo e não ter medo, ou ainda desejar com medo mesmo, não faz mal.

E afinal, acredito que não mata, e se mata, mata o necessário para que consigamos reviver, o que nos fortalece se soubermos sermos pessoas equilibradas e conscientes que alguns desejos não tem prazo de validade. E que muitos se modificam ao longo da vida, morrem e se reinventam para assumir contornos ainda mais interessantes e jamais pensados antes.

E você? O que você quer de verdade, de verdade mesmo? Não o que parece que quer, mas o que quer sem nenhum filtro, aquilo que é tão desejado que a gente nem ousa dizer que é desejado.

E o que de pior pode acontecer com desejar o que realmente se quer?

O perigo de que não aconteça está presente em todas as esferas da vida, no que queremos ou desprezamos. Não desejar o que realmente se quer, ou não descobrir o que se quer não vai evitar nada disso.

É preciso que a gente elimine a confusão para conseguir saber o que realmente queremos. Durante muitos anos eu achei que eu soubesse o que eu queria, mas descobri que era só uma historia boa que eu contava para mim mesma sobre o que eu achava que queria. Eu não tinha a coragem de querer mesmo o que quero hoje, precisei de atrevimento, e ainda preciso em muitas horas, e isso porque eu acreditava que era impossível ter o que eu queria.

A questão é que talvez seja impossível mesmo, talvez não. A verdade é que eu não sei, mas me arrisco. Eu prefiro acolher o que pulsa em mim, é isso.

A negativa pode acontecer de várias maneiras. A gente nem sempre sabe acolher na gente mesmo o desconhecido ou o extraordinário que pode aparecer como um desejo dentro da gente, ao qual por vários motivos vamos o evitando.

Alan Watts tem um áudio brilhante no youtube, é sobre conhecer verdadeiramente o que desejamos, e como isso pode ter uma força libertadora sobre nós, recomendo.

Hoje pratico um ato de atenção a qualquer desejo que apareça em mim, e a qualquer pensamento que eu identifique como do “realmente querer”. Tive que silenciar algumas vozes externas de ruídos para aprender a ouvir tudo isso, tive que as vezes silenciar a minha própria voz interna e deixar o silencio ser meu guia. Hoje não tenho a pretensão de sempre achar que sei o que quero, hoje as vezes eu sei e me entrego a isso, as vezes estou confusa, com medo ou evitando querer de verdade algo.

Mas sei que é preciso agradecer a um pensamento, a um desejo e estar mesmo atenta ao que ele revela. Ele não revela o impossível, ele revela o desejável, o alimentado, o que a gente quer atrair e sonha de sonho disfarçado porque tem medo de sonhar com força de sonho sem disfarce e admitir pra gente mesmo.

A gente só disfarça porque tem medo, medo de dizer que é isso mesmo que a gente quer, que não é passatempo, nem passasonho que é sim realidade desejada pra ser vivida, mas que temos medo que não passe de pensamento pensado. Ai a gente se tranca e tranca o sonho, e fica em confusão sem saber o que realmente nos faz vibrar.

Ai a gente também esquece que somos nós mesmos a possibilidade que este sonho ou desejo tem em se realizar.

Qual é o seu verdadeiro desejo e sonho de hoje? Pra hoje? Sem impor limite, o que você quer com ousadia e de verdade?

 

Todos os lugares que encontro no mesmo lugar

 

São tempos em que a gente fisicamente não tem se mexido muito, ao menos eu. Mas não entendo essa imobilidade física como algo limitante, ao contrário, a mim que sempre fui introvertida, a mim que sempre encontrei milhões de caminhos a percorrer com a minha curiosidade com o mundo dentro e fora de mim, para mim há muitos lugares em que posso ir.

A gente guarda caminhos de mundos dentro da gente, e cada um tem lá suas fronteiras.

Confesso que tem caminhos já rodados e outros que não vou por puro medo, e ainda outros que desejo frequentar em mim mesma e nos outros, mas me falta a ousadia.

Caminho é coisa que a gente constrói, não tem receita certa, mesmo em um caminho conhecido existem surpresas que só vimos se estamos atentas, mas bem atentas mesmo.

Existe um caminho que me leva a muitos lugares e as vezes aos mesmos mas de formas inesperadas, este caminho é o da leitura, e as vezes o da escrita também.

Nem todo mundo encontra caminho na leitura ou descobre lugares ou os revisita. Cada pessoa tem seu mundo, e cada um lê ou não lê por um motivo.

A leitura pra mim não é passatempo, isso acho até que é uma ofensa sabe?

Tem gente que lê para passar tempo, matar tempo. Ou seja, para alguns a leitura está relacionada com um tempo, assim como a escrita.

Mas pra mim não, ao menos não ao tempo cronológico, pra mim ler e escrever está relacionado a estar em uma dimensão onde o tempo parece não existir.

Não sei exatamente se isso é bom ou ruim, se é contato profundo com o momento ou se é desconexão com o mundo externo, só sei que me leva a muitos lugares em um mesmo lugar.

E tudo acontece dentro de mim, e quando tenho a sensibilidade de que acontece ou que consigo compartilhar com o outro, quando isso se dá então eu ganho o mundo, eu ganho um espaço no mundo que eu não sei as coordenadas geográficas, eu não sei o nome, eu não sei descrever, eu não sei inclusive as vezes como chegar nele de novo, mas sei que existe.

Ler não mata o tempo, ao contrário recria ele, o que mata o tempo é a gente não se envolver. A leitura é uma ação de envolvimento, e de entrega, a leitura nisso é igual a vida. Não se envolver na vida, no local em que habitamos, dentro ou fora da gente, isso sim mata o tempo.

Por isso que continuo descobrindo e habitando muitos lugares em um único lugar, e tendo a leitura como minha guia, só para ver a vida me envolvendo e se multiplicando dentro de mim.

A pergunta recorrente

A humanidade tem muitas perguntas. Muitas mesmo.

Somos seres que questionam e tem sede de conhecimento e curiosidade. Cada um tem a sua pergunta, ou duvida mais recorrente. Cada um tem aquela questão que se põe a pensar não somente uma vez na vida, mas recorrentemente.

E você qual é a sua?

Você deve ter uma, uma que se respondida, ou se tentada ao menos ser respondia, faz tudo ter um sentido. Observar esta pergunta é estar atento.

As vezes é difícil a gente se aquietar em um mundo de tantas perguntas e encontrar ela, mas ela existe, e é a pergunta recorrente. Aquela que de tempos em tempos é capaz de dar sentido aos nossos anseios, trazer tranquilidade em prestar atenção a resposta que se forma ou não a partir dela, e observar como através da ótica de um simples questionamento nos sentimos vivos e despertos.

Para alguns a pergunta recorrente é de onde viemos, para onde vamos, como ter sucesso, qual a formula para uma equação matemática complexa, como ser feliz, qual o proposto de vida, fulano me ama?…. E por ai vai.

Em mim a pergunta recorrente toma uma sensação de orientação para minha vida e de certa forma me traz um sentido, propósito, ela é:

Sou capaz de estar conectada ao mistério da vida em mim mesma e nos outros?

É isso que me pergunto quando nada parece fazer sentido, ou quando estou sem fé no universo, nos outros ou em mim mesma.

Eu estou conectada? Eu consigo me conectar com os outros? Essa é a pergunta que constrói meu mundo interno. Eu percebo nela inclusive como eu ainda me coloco no centro do mundo, a pergunta parte de mim e somente assim vai para os outros.

Mas eu não sei você, mas eu ainda estou aprendendo a ser menos egoísta e quem sabe egocêntrica. É um aprendizado, tento, erro mas ele não sai da minha jornada. Talvez eu fracasse, mas fracassarei tentando.

A partir da minha pergunta recorrente tenho outros questionamentos que vão me servindo de critérios para que eu possa avaliar meu desempenho comigo mesma, com esse mundo tão vasto e misterioso e com todos os seres que me relaciono nele.

Sou capaz de acolher a mim mesmo e ao outro?

Sou capaz de enxergar em todos o mistério que reside neles também sem julgamentos pré concebidos?

Sou capaz de acolher sem julgar somente pelas lentes de meu mundo interno?

Sou capaz de valorizar o que é essencialmente importante e estar atenta a isso?

Sou capaz de contribuir, ainda que infimamente com alguma transformação que nos torne melhores e mais conscientes?

Do que somos feitos?

Se sou, ou se estou tentando ser a pergunta se cala. Me entrego ao que não sei. Sinto o mistério e não tento entendê-lo, classificá-lo ou aprisioná-lo em minha perspectiva interna tendenciosa. Se eu tentar entender demais eu mato o mistério.

Então me calo, e o mundo se refaz, eu me refaço, as pessoas se refazem, tudo é fresco.

Sinto algo novo surgindo no modo como vejo o mundo. E sigo sendo, e fazendo as mesmas perguntas para continuar a sentir e ver o mundo se refazendo em outro mundo a cada vez que sou capaz de estar atenta e reconhecer, e me conectar ao mistério em mim e nos outros.

Como estamos gastando o tempo do outro?

 

Sabe o tempo do outro?

Da sua mãe, irmã, pai ou irmão. Da tia, do amigo, do tio, da cunhada, daquela pessoa com quem você pouco fala ou que fala muito.

Sabe esse tempo? Não aquele em minutos em que os segundos contam, mas sim o tempo do dia a dia, o tempo disponível, o tempo que a gente tem limitadamente.

Ele pode até ser cronológico, mas não é essencial e somente isso.

Será que temos tido respeito com o tempo do outro?

Será que estamos sabendo filtrar ou ter cuidado em como estamos gastando o tempo do outro?

Numa reunião se falo demais e não deixo tempo para o meu amigo se expressar, estou gastando o tempo dos outros.

Se apresso meu colega em tomar uma decisão, posso encurtar o tempo dele.

Se falo de coisas que sei que ele não gosta, e insisto, estou gastando o tempo dele

O tempo é precioso. Se eu pudesse dar de presente uma coisa, eu daria tempo para algumas pessoas.

Principalmente algumas em que eu gostaria que elas tivessem tido mais tempo, não para gastarem comigo, mas para gastarem com elas.

Como temos respeitado o tempo do outro?

Será que temos dados tarefas demais? Será que temos enchido ele de desnecessariedades?

Repare lidar com o tempo do outro é lidar em como valorizamos a sua presença, a sua disponibilidade para viver os vários aspectos da vida.

Pensar em como temos respeitado e gastado o nosso próprio é uma tarefa mais comum, mas a gente deveria aplicar isso aos outros também.

É que a gente se esquece mas não deveria, que o tempo é um presente e que ele é mais limitado do que gostaríamos.

Incertezas, Mortes, Coronavírus e o olhar que muda o mundo

A incerteza é nossa companheira

Tem coisas que a gente esconde de baixo do tapete, que nem aquela gaveta de tranqueira

do armário, sabemos que existem mas as deixamos pra lá. A incerteza é uma delas.

Tem gente que até finge que ela não existe. É somente quando ela cresce colossalmente que a gente admite que tem que lidar com ela, mas a verdade é que ela sempre esteve aí para lidarmos com ela.

Dizem que estamos vivendo em tempos de incerteza hoje. Isso é mentira. Nos sempre vivemos com as incertezas, mas as minimizamos.

As incertezas sempre estiveram ai, mas o nosso foco estava em outros aspectos da realidade. Tanto coletiva quanto individual. E de varias forma estávamos habituados com muitas delas. E o modo como sempre lidamos com ela vai marcar a diferença como lidaremos agora nesse momento de “crise” devido ao covid-19 e as limitações impostas por ele.

Incertezas são parte da vida, e inclusive uma parte que pode trazer descobertas e novos cenários, as vezes melhores até, do que os já “certos” e previsíveis. Pense nisso.

Mortes?

Todos os dias as pessoas morrem, de várias doenças e causas. Mas não acompanhamos os números e suas causas. Não sentimos o impacto coletivo das mortes por câncer, diabetes ou desnutrição dentre tantas outras. Se acompanhássemos talvez ficássemos horrorizados.

O que torna o fenômeno tanto da incerteza e das mortes devido ao covid-19 diferente é a forma como o temos sentido: estamos todos sentindo e sendo afetados e ao mesmo tempo, e muitos tem estado com foco excessivo no assunto.

Não me entenda mal, é importante cuidar-se, mas ainda mais importante é saber qual o limite do saudável, tanto a nível físico quanto mental, e do que é obsessivo e portanto pode tomar uma dimensão de desequilíbrio e pânico.

Estamos coletivamente compartilhando como uma espécie os mesmos anseios e medos, (gostaria que estivéssemos compartilhando em maior grau outros aspectos como a criatividade, o cuidado com o outro e a reinvenção de nossas rotinas, mas o que vejo ao meu redor é mais gente focada em medo) e é exatamente essa dimensão, de sentir coletivamente e em grande escala, tanto para o lado positivo quanto negativo que faz com a situação tenha tanto impacto em nossas vidas.

A gente esqueceu do coletivo. Da conexão que nos une enquanto seres. Ao tudo que engloba todas as coisas por iguais que não distingue o bom do ruim, porque tudo é uma parte só, nossa mente que encontra separação.

O covid-19 é uma baita lição, um claro exemplo da nossa conectividade. De quanto o ato de um só humano está conectado com todos os humanos através da compartilhação.

Compartilhamos o covid-19. Ele é invisível. Compartilhamos outras milhares de doenças, mas também compartilhamos saúde, ideia e sentimentos. A conexão e sua teia é imensa. A gente que se perdeu e esquece dela frequentemente.

Somos uma grande aldeia global, estamos todos invisivelmente ligados, só não conseguimos perceber isso por que nossa mente insiste na separação.

A morte

Neste tempo de coronavírus vários questionamentos que deveriam acompanhar a gente desde sempre, mas que são neglicenciados, tem aparecido. Parece que somos seres que as vezes só conseguem refletir no limite de qualquer situação.

Questões praticas como da morte sempre estiveram a espreita. E você como vive com a promessa dela?

Como você se prepara para a morte?  E o mais importante como você tem vivido a vida?

 

Se partisse hoje, e deixasse os seus entes queridos. Quem cuidaria de que? Tem plano de saúde, cade a carteirinha? Tem seguro de vida? Senhas, dinheiro guardado, projetos desenvolvendo?

Pense um pouco, como anda a sua vida? Como anda a sua organização dela? É importante a gente se ocupar em vida em como as cosias ficaram depois que a gente não estiver aqui.

Como seria a sua vida sem você?

E sem o outro que te dá suporte? Como será que você poderia auxiliar mais as pessoas que te auxiliam e que cuidariam de você caso fosse necessário?

O que você poderia fazer agora que em uma situação-limite poderia tornar mais fácil eles terem que lidar com as questões que você não estará aqui para ajudá-los?

O olhar que muda o mundo

A gente muda o mundo com o nosso olhar e depois com a nossa ação sobre o que captamos e como agirmos sobre aquilo que percebemos.

“Ah, mas como agimos é mais importante do que como pensamos”, sim é, e sim não é. Isso porque é tão ou mais importante como captamos e com que perspectivas o contexto que estamos, porque assim, e só assim que conseguimos ter uma ação que está casada com a realidade, associada e engajada com ela e portanto uma ação reflexiva que realmente consiga ter ênfase em agir conscientemente e com proveito e qualidade.

O covid-19 está mudando a seus termos o mundo em que vivíamos.

Eu, sempre gostei das crises na minha vida. Talvez seja porque para mim elas sempre foram aprendizagens e oportunidades. Mas cada um tem seu contexto, e sua reação a ele. No final o que define uma crise ser ou não oportunidade é sempre como a encarramos.

Por isso que é tao importante lidar com as incertezas como companheiras. Alan Watts já defendia isso há muitos anos em sua “A sabedoria da insegurança”.

Lidar com a incerteza que cresce hoje é um interessante exercício de olhar o mundo sobre a ótica da impermanência e da mudança. Que alias é uma constante em nossa vida. O que muda as vezes é a velocidade com que a mudança acontece.

Ter outros olhares para o mundo é preciso. Vejo muito potencial no momento de agora.

Mas muito do que estamos vivendo pode doer ou causar insegurança. É como esticar um músculo dormente, ou que a gente nem sabia que existia, a gente sente. A gente não sabe o que, e se está lidando certo com a situação atual, mas é importante continuarmos sendo inventivos, dispostos e corajosos, ainda que com medo mesmo.

Não existe um caminho para sair da situação, a situação é o caminho. E nossa ação a, e com ela é que possibilita continuar a caminhada. As vezes a situação é pra gente mudar, as vezes é só pra gente ser transformado por ela.

Se refazer nem sempre depende das situações, as vezes elas são iguais mas em diferentes contextos. É preciso estar atento, é o nosso olhar profundo que muda e ordena o mundo, porque no fundo toda a transformação não vem das situações, elas vem da gente. As situações são potencializadores, mediadores, mas somos nós que interagimos efetivamente sobre e com elas.

Para onde estamos indo? Em que cenario estaremos?

Talvez seja mais importante perguntar como estão sendo as pessoas que estão indo e não para onde.

A qualidade de pessoas que estamos sendo e as mudanças que estão se promovendo na gente são cruciais para determinar se conseguiremos ou não ir a algum outro lugar em nossa jornada como espécie.

Eu acredito profundamente na transformação.

Eu acredito profundamente que estamos vivendo um momento de reestruturação, de vários sistemas, de como levamos nossas vidas e nossa rotina, tanto questões do micro quanto do macro. E que vários questionamentos e reflexões serão acentuados e levados a um grau de potencialidade regenerativa em nossas vidas.

O mundo não será como era antes, acredite, se quisermos continuar a viver como vivíamos no passado morreremos, não somente uma morte física, mas uma morte de outras formas de sermos.

Nós, não seremos como eramos antes.

“Passar é viver. Permanecer e continuar é morrer” Alan Watts

Quem tem medo do Domingo?

Existem dias em que não se há pressa em viver. Exite um dia que poderia ser eleito como um dia propício ao slow living. Que dia seria esse? Se você tivesse que escolher, qual seria?

Pensou em domingo?

Domingo é um dia diferente. Todos são, sim verdade, mas a percepção do domingo tem um impacto grande na gente. Parece que é ele, o melhor dia para notar o tempo, para respirar.

Há quem não goste do domingo, deve ser por que ele é bem introspectivo, leva a quietude, a horas longas, a estender-se até a gente não conseguir fugir da gente mesmo, ou do tempo a que estamos “presos”. As vezes a gente foge do domingo procurando coisas para fazer, coisas em que se perder pra não se dar conta, deve ser por isso que a segunda assusta tanto, ela é este susto: “Hum, já é segunda, agora o tempo corre novamente”.

Tem gente que foge do ritmo do domingo, tem gente que se entrega a ele, que é tão em si mesmado, que nos leva a ficar em nós mesmos. Mesmados a gente também, as vezes a contragosto, voluntariamente em outras, para alguns forçados, sem querer.

Será que isso tem a ver que a gente não reconhece um ritmo de pausa e tranquilo como vida?

Será que é por isso que é comum a gente procurar uma programação para evitar a programação natural da vida no domingo?

Queremos ou estamos acostumados a sermos produtivos, sem nem sabermos o por que. E o domingo é o dia que brinca com isso.

E quanto ao outro grupo? Aquele que percebe o domingo com uma trajetória diferente?

Há quem se entregue também. Que pare por parar. Que coma sem fome por que tem tempo, quem durma sem sono e que vai devagar por que é como se vai o ritmo.

Acredito que o domingo deveria ser o dia mundial do slow living.

Acredito que dá para aprender algo sobre ritmos e temporalidades do domingo. Pra mim ele pode simplesmente arrancar da gente a pressa em viver. Como um convite em arrancar da gente a pressa em morrer. Porque viver rapidamente, pode significar também morrer rapidamente. O domingo tem isso pra mim, me leva de mim mesma o desejo em viver tão rapidamente. E me traz um desejo de viver no ritmo em que a vida acontece.

Repare que ele é o dia oficial dos momentos.

Sinta.

Parece ate que cada fase do dia traz um momento. Até a conhecida depressão pre segunda feira.

Novamente defendo a percepção da segunda como uma derivação da percepção e descontinuidade do domingo.

Acredito que algumas pessoas não gostem da segunda por que ela é quase como um susto, um acordar assustado de que após o tempo passar lentamente, se acorde assustado de que se há muito mais pouco tempo no novo dia.

Mas o domingo ou a segunda, a terça ou a sexta tem a mesma quantidade de horas.

Talvez ganhássemos muito se nos outros dias não tivéssemos tanta pressa em viver. Não é para sermos lentos, mas é meio como Saramago disse “Não tenhamos pressa, mas também não percamos tempo”.

E você?

Como vive ou mata os seus domingos?

E você como se leva ou se deixa levar pelo domingo?

Que dia da semana representa você e por quê?

E nestes tempos de quarentena, em que estamos muitos de casa trabalhando. Como o domingo é para você? O que muda ou não?

Amanhã parece a segunda? Que impacto você sente no seu domingo?

De tudo algo é interessante, que nestes tempos de reclusão alguns hábitos e rotinas serão mudados, a gente vai perceber muita coisa diferente.

E quem sabe até faça as passes com o domingo ou a segunda. Ou encontre pedaços esparsos, vestígios do domingo em outros dias da semana. No horário de almoço por exemplo, um almoço em casa com uma soneca.

Saber eu não sei, mas sei que perdi há algum tempo meu medo e ansiedade dos domingos, e fiz as pazes com a segunda.

Quando foi que tiraram a curiosidade da gente?

Ninguém é uma árvore, você pode sair andando por ai.

As vezes acredito que tem árvores que inclusive andam mais do que algumas pessoas. Serio, seria para rir, mas não é. (rsrs)

Uma coisa que tira a gente de nós mesmos e nos levar a sair por ai é a curiosidade.

Mas você tem estado curioso de verdade?

Ou só tem “sabido” das coisas por puro impulso?

Ou só tem estado com milhares de pensamentos, mas raramente intrigado ao ponto de estar curioso?

Quando foi que tiraram a curiosidade da gente?

Quando foi que a gente deixou de ser curioso pra só pensar?

“E se…”, “E se..” e ir alimentando a curiosidade com os “e se?”

A criatividade não deve morrer com a informação, ou com dados, ao contrário a criatividade deve se sobrepor a eles.

Pense rápido, se te pergunto alguma coisa, como por exemplo “Quem inventou tal coisa?” Qual é a tua primeira ação se você não sabe?

A)Parar um pouco, fazer algumas conexões e ficar curioso e só então depois ir buscar no Google

Ou

B) Nem ter tempo de fazer suas próprias conexões, de criar possibilidades, de cogitar “E ses”.

E de nem chegar a sentir a curiosidade por algo cuja resposta você não sabe e já ir logo de cara procurando no Google…

Bem provável que muitos de nós tenhamos a segunda ação, a alternativa B ao invés da A.

Ao invés de estar curioso, e de ficar curioso a gente já vai logo matando a curiosidade com a informação. Não dá nem tempo de elaborar algo por a gente mesmo, de pensar no que não é, de criar o que não existe, a gente vem já com a resposta, que na maior parte das vezes cala uma pergunta, quando na verdade poderia ser um portal para descobrir alguma outra coisa.

Acho que a inventabilidade não mora no google, ou em respostas obvias, a inventabilidade deve morar no domínio do não saber, da curiosidade que não se mata, e sim que se alimenta.

E eu queria saber mesmo, quando foi que tiraram a curiosidade da gente?

A curiosidade mesmo sabe? Aquela do ato de estar interessado, se envolver e buscar conhecimento sobre o que nos incita no mundo, ao invés de irmos como cão adestrado a pegar a bolinha que nos é jogada simplesmente por que ela foi lançada.

E além do mais a gente não precisa estar “sedento” por informação como estamos hoje, a gente pode simplesmente estar curioso sobre assuntos que realmente importam e que não serão como uma bolinha jogada e trazida pra ser arremessada de novo.

Sinto que as pessoas que vivem informadas estão sempre atrás da bolinha. E também sinto que a bolinha é um “brinquedo” meio limitado pro nosso abastecimento interno. A gente pode ter tão mais do que isso.

As vezes acho que não saber é delicioso pra minha curiosidade.

Porque saber de mais, ou querer ter certeza é uma porta na cara da curiosidade e imaginação.

E como tampar o buraco da inventabilidade com uma pedra pesada.

Conhecimento é bom, mas não poder ser algo que limita

Não que devemos ser superficiais, longe disso, acho que cada um deve ser como quiser desde que respeite e concilie o seu “como quiser” com o “como quiser” do outro.

Mas em geral nesse mundo de google e etc… sinto que parece que perdemos o gosto da curiosidade genuína, aquela profunda mas que se faz leve pela curiosidade, aquela aumentada e talvez até romantizada por não termos acesso ao que poderia matá-la, ou ao menos não termos acesso tão rapidamente e superficialmente como temos dito.

Reaprender a estar curioso. Aprender a estar curioso é reaprender a olhar de uma nova perspectiva.

A curiosidade é um processo de conhecimento que inclusive induz a gente a construir um entendimento sobre algo em primeira mão, por a gente mesmo. Não nos é dado, e sim é descoberto. E te garanto é delicioso, vale cada momento, vale cada pontadinha de imaginação misturada com devaneio.

Vamos Brincar de estar curioso?

Por isso sugiro uma brincadeira

Você conseguiria estar curioso hoje?

Você conseguiria estar curioso sobre o significado de uma palavra, de onde é a capital de tal pais ou sobre a as formigas que tem estômago transparente até o final do dia sem pesquisar na internet?

Vale conversar, perguntar se alguém sabe, mas esse alguém não pode consultar a internet também, pode até usar dicionário (físico) e ir a biblioteca física, o que vai te dar um trabalho de se locomover no espaço e tornar o processo de matar a sua curiosidade difícil, vale tudo isso, mas a web não.

E no final do dia, qual foi a sensação de estar curioso?

É gostosa ainda como era quando criança? Que o não saber gerava uma expectativa e que a gente criava mil respostas?

Como é estar curioso de novo?

Me conta

Estou curiosa

A vantagem do dia

Esses dias quando eu voltava do trabalho já tarde da noite, um amigo me disse naquele dia tinha acordado as 11hrs.

Que tinha ido buscar pão na padaria fresco, que fez seu próprio horário de trabalho, que tinha ficado o dia todo em casa e vivido de acordo com os desejos que tivesse no dia e etc…

De certa forma ele está com a vida “ganha”, e o que ele me disse foi sobre as vantagens daquele dia.

Foi então que eu me peguei pensando que a minha vida não está “ganha”, mas que ela tem também as suas vantagens, assim como o meu dia tem também.

Naquele dia, eu fui a um local que nunca tinha ido antes. E fiquei meio perdida na rua, tentando me localizar para encontrar o caminho.

Pedi informação a uma moça que para a minha coincidência estava indo ao mesmo local.

Eu não sabia ainda. Mas naquele momento estava nascendo a vantagem do meu dia.

Por um pensamento, um único e fino corte de pensamento, eu parei e comecei a relembrar o meu dia enquanto voltava pra casa.

Fazia sol? Fazia. Escaldante. Eu a pé. Mochila pesada nas costas. Sem saber se conseguiria fazer o que precisava e ainda ir trabalhar a tempo. Isso até poderia ser uma desvantagem. Mas não foi.

Encontrei alguém no caminho, que estava indo ao mesmo local que eu. Ela deixou que eu fosse junto. Uma desconhecida.

Fomos caminhando juntas e conversando aleatoriedades.Ela gente que nem eu, gente que tem como eu medo de confiar em gente.

Nunca mais a verei. Mas foi uma conversa gostosa. Dessas raras e sinceras. Tudo isso em uns 20 minutos.

E a gente se despediu com a certeza de que nunca mais nos veremos, e com um abraço.

A vantagem do dia do meu amigo era de ter o seu horário, acordar a hora que quisesse, ter pão fresquinhos e as horas do dia dele a disposição de seus desejos.

A minha de ter uma conversa gostosa com uma estranha. E me despedir de alguém com quem eu só fiquei 20 minutos da vida, com um abraço.

Acho que tive mais sinceridade com a Neide, esse é seu nome, do que tive com muitas pessoas nos dias recentes.

Por que quanto das interações que a gente tem com as pessoas são sinceras?

Eu simplesmente não suporto muito tempo com gente rasa.E quando vejo alguém fundo, mergulho.

No final das contas cada um tem a vantagem do seu dia e da sua vida. Depende do valor e do olhar que atribuímos ao que vivemos.

Para uns é acordar a hora que quer, fazer o que quer.

Para outros é ter a possibilidade de conversar com um estranho, numa rua também estranha, trocar um abraço sincero, e descobrir que aquele momento pode significar um mundo de vantagens.

O melhor mesmo foi descobrir, e até mesmo ficar surpresa, com a vantagem do meu dia.

E você qual é a vantagem do seu dia de hoje? Ou o de ontem?

Acredite: Te aconteceu o melhor que poderia ter acontecido

Estou satisfeita ao local que a vida me levou.

Sempre.

E estou satisfeita em como tenho agido em relação ao local que estou.

Saiba que o que aconteceu com você foi o melhor que poderia ter acontecido, sempre.

Eu sei, pode parecer, ou ser meio difícil de acreditar nisso. Mas ter este pensamento realmente nos coloca em um nível de aceitação transformador. Eu ainda não sei exatamente como explicar. Como construir com palavras o efeito poderoso que isto tem tido em minha vida.

Mas acredite sempre acontece com a gente o melhor que poderia ter acontecido.

E quando olhamos por este lado, deixamos de lamentar e desmerecer o que aconteceu com a gente, comparando ao que não aconteceu ou poderia ter acontecido.

Quando passamos a lidar com o que está acontecendo de forma a sermos receptivos, ao invés de tentar “matar” e eliminar o que está acontecendo.

Quando isso acontece passamos a lidar com o que é real, em vez de abstrato.

Nós concentramos em algo que existe e que é possível de ser moldado com a nossa percepção ou ação.

A gente se concentra na parte cheia do copo, no liquido, até por que ela é a parte que de fato existe.

Lidar com o que existe ao invés do que com o que poderia ter existido se torna uma liberdade.

Ao lidarmos com o que existe, é possível que nosso olhar se torna grato, e nossa percepção se torne aberta e acabamos por estarmos satisfeitos com o melhor que aconteceu com a gente.

E é assim que eu penso, você pode achar isso otimismo barato.

Ou eu ser uma pessoa resignada, mas não é nada disso, tão pouca sou vítima do que me aconteceu.

Ao contrário, sou a protagonista que decidi viver com isso conscientemente, e decidi que na minha trajetória de vida eu posso me entregar ao que me acontece, e só a partir dessa entrega e envolvimento eu posso me mudar com o que acontece ao mesmo tempo que o que me muda muda o que acontece.

Por isso eu sempre estou com o melhor que poderia ter me acontecido.

É um mindset que dá trabalho e pode ser cheio de armadilhas, de ilusões, se você não souber filtrar os eventos da vida e seguir em frente.

Mas é também um mindset que torna a gente meio mutante, cheio de oportunidades e contentamentos alegres, e que se você souber ser grato, receptivo e criativo ao mesmo tempo aos eventos da vida, eles se tornam o que melhor podem acontecer a você.

Do controle para o envolvimento

Quando a gente aprende a ter a perspectiva que nos aconteceu o melhor que poderia ter acontecido, deixamos também de lado o remorso ou a lamentação.

Isso porque aceitamos que o que nos aconteceu não é possível de controlar, mas que a nossa reação ao que nos aconteceu sim.

Aquilo que não aconteceu pertence a uma dimensão impossível de controle e por isso mesmo cheia de ansiedades: o passado, e tudo que está além do nosso domínio, o descontrole.

O passado porque não há forma alguma como mudá-lo.

E as coisas que estão em descontrole por que além de estarem atrás em um tempo cronológico, seriam impossíveis de serem alteradas ou controladas.

A gente então se coloca em outro domínio, e lida com um copo meio cheio. A gente se coloca no domínio do fluxo e da entrega, da impermanência de todas as coisas.

Lida com o que aconteceu, em vez de ter abstração da parte meio vazia. Da parte que de fato não existe.

Assim como no texto, de como ter a melhor escolha, em que acredito que a única escolha possível é a que foi feita. Acredito que o que aconteceu com a gente é o melhor que poderia ter sido feito da situação.

E justamente por isso, paradoxalmente a gente sente que tem algum controle sobre nós mesmos ou a vida. Porque entendemos que o controle está na nossa ação ou reação ao que nos acontece.

E assim paramos de querer controlar a vida loucamente, e passamos a nos envolver com ela. Envolvimento é dinâmico, controle não.

E é justamente quando nos envolvemos, em vez de controlarmos, que algumas circunstancias, serendipidades e coincidências estão justamente disponíveis para nós, e assim nos acontece sempre o melhor que poderia ter acontecido.

 

Como ser um escritor de verdade, em apenas um passo

Escrever, escrever.

Pessoas que eu conheço, pessoas que desconheço desejam ser escritoras.

E as vezes eu as ouço falar que este é um desejo ilusório. Que o Brasil não tem espaço para literatura, que não tem leitores, que o que vende é futebol e funk, etc…

Talvez não tenha mesmo o espaço glorioso que você criou na sua cabeça para o escritor glorioso pelo que você desejaria ser reconhecido.

Mas nada disso te impede de escrever.

“O que te impede de escrever? Nada!”

Acredite, nada mesmo te impede.

Até mesmo ser um escritor de sucesso, para isso também nada te impede.

Desde que você estabeleça o que é sucesso nos seus termos e consiga faze-o, eu já falei do sucesso nos nossos termos neste texto aqui.

Dá uma olhada que é interessante.

Mas voltando ao assunto da escrita, o que vai fazer de fato você ser um escritor, e parar de ser um aspirante é bem simples.

O segredo que vai fazer você ser um escritor é escrever.

Parece estranho, mas, em geral, é somente isso.

Escrever.

Por a bunda numa cadeira.

Por letra após letra no papel ou na tela.

Todos os escritores, os bons e ruins começam sempre do mesmo ponto.

O que os torna diferente uns dos outros é outra história.

Mas em suma, a grande mágica que vai te tornar um escritor é escrever.

Qualquer escritor de sucesso só foi um escritor de sucesso porque escreveu, é isso é simples, é tão simples cru e verdadeiro que chega a ser esmagadoramente difícil de aceitar.

Não ponha o fato de você não escrever na falta de leitores, na falta de preparo, na falta de reconhecimento, em bloqueios de criatividade, ou porque todas as ideias já parecem terem sido exploradas. O fato de você não escrever é simplesmente por que você não escreve.

Escritores escrevem, bons ou ruins escrevem, o princípio básico para ser um escritor é escrever, e é somente isso.

Escrever é o passo, todo o resto é a estrada que você caminhará.

Mas sem passo não há estrada, é preciso caminhar para ter estrada.